declaração de princípios

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Recolher o lixo de um prédio como o Edifício Tristeza pode ser uma aventura humana, demasiado humana. Para além da escatologia e dos tenros restos de humanidade que contam fisiologicamente detalhes da vida social desses seres a quem me coube zelar no fim da vida – fluxo intestinais, eventuais cópulas, refeições mais lautas – também é possível averiguar, por vezes, momentos sublimes, fossas monumentais e crises eventuais. Assim foi que coube ao meu pequeno cubículo um vaso de cristal da Boêmia bordô colado em pedaços (fruto de uma briga de casal), roupas rasgadas remediadas pela herança de destreza da avó mineira (fruto de uma noite tórrida), capas de vinis altamente decorativos (fruto de uma briga em que os tais foram defenestrados, mas eu jamais diria não ao Ronnie Von, que agora mora ali em cima da cômoda), entre outros objetos.

A biblioteca é um caso particular. Da Barsa, de onde veio grande parte da minha cultura geral, a livros ligeiramente mais descartáveis que os demais (qual não é, não é mesmo?), fui acumulando um diálogo profícuo, sólido, e infinitamente menos aborrecido do que o praticado com os seres que me chamam dia e noite atrás de chaves, informações, açúcar e afeto. Destaco dessa breve coleção as encantadoras cartas de Myrna, espécie de irmã astral, que, como eu, acumulou conhecimento humano suficiente para, por um lado, se sentir obrigada a orientar humanos perdidos no centro da cidade de São Paulo. Mas, por outro, o mais sábio diga-se, querer manter num sorriso acolhedor e frio, a distância necessária de todos vocês.

Por isso, como Myrna, dedicarei a mais ociosa das minhas horas a ajudar almas aflitas. A começar pela elucidação de que não há ajuda, não há almas, e pela exaustão da experiência devo atestar a existência de uma grande, sonora, inquestionável aflição. Se com minha parca sabedoria eu puder estabelecer essa adorável base comum, minha missão estará cumprida.

Deixe sua aflição no escaninho mais próximo.