A 2ª vez de um nerd, 33 anos depois

race

Uma noite qualquer de 1983, Vila Califórnia, zona leste de São Paulo. Liguei o rádio na Bandeirantes FM num programa chamado “New Music”, que tocava new wave, punk, eletrônico etc. Um música tinha acabado de começar e chamou a atenção deste fã de novo rock, então com 19 anos e tentando se encontrar no deserto de informação daquela época pré-internet. Geralmente eu gravava alguns programas em fita cassete, mas naquele “fatídico” momento estava desarmado. O que tocava era um synthpop com batida eletrônica seca e meio lenta, uma guitarra solando, um teclado marcante e um refrão que dizia “I can’t sleep tonight… in Metropolis”. Achei muito boa! Mas o célebre apresentador Erik Reibel não “desanunciou” a música e começou ali a minha tortura. Quem era? Qual o nome? Toca de novo! Nos dias seguintes telefonei na emissora, sem sucesso. Perguntei aos amigos nerds mais próximos e nada. Escrevi pra rádio e não tive resposta.
Passaram-se os anos e o refrão resistiu todas as etapas da memória: sensorial, curto prazo, “de trabalho” e se estabeleceu na zona de “longo prazo”. O playlist da minha rádio mental tem alguns hits pessoais recorrentes e músicas que vão e vem. Sempre identifiquei todas. Menos essa. Não sabia o nome da banda, o nome da música (deduzia que era “Metropolis”) e de qual país… Só sabia repetir o tal do “I can’t sleep tonight… in Metropolis”.
Final dos anos 90, internet começando, algumas pesquisas e nada. Acho que fiz até um apelo sem sucesso no Garagem, o programa de rádio que apresentava na época na Brasil 2000 FM com os amigos André Barcinski, Álvaro Pereira Júnior e André Forastieri. Anos depois, em 2004, reencontrei uma amiga que morava em São Francisco, companheira fiel de nerdices musicais do início dos anos 90. Apostava tudo na sua persistência e sabedoria, uma das poucas pessoas que entenderiam essa esquisitice sem me achar um ET. Ela procurou muito. Nada! Banho de frustração.
De tempos em tempos, tomado pela indignação, eu pesquisava no Google, em páginas de troca de discos, blogs e sites especializados. Mas não achava. Tudo bem que poderia ter apurado a pesquisa, ser mais raçudo nessa busca, mas me controlava para não virar obsessão. Quando “Metropolis” tocava na “Mental FM”, eu às vezes saía para a caça. Um desses dias foi uma segunda-feira, dia 28 de março de 2016.
Estava em casa. Tinha acabado de comer meia porção de torresmo no Bar Valadares, na
Lapa, enquanto esperava uma porção para viagem de almôndegas fritas (já tinha premeditado tacar dentro de um caldo que eu tinha na geladeira). Jantei super bem e de repente a memória apitou… “I can’t sleep tonight… in Metropolis”. É agora ou nunca! Fui pro computador disposto a não morrer sem escutar esse “hit” pela segunda vez. Caí no site Discogs (www.discogs.com). Sempre soube que tem tudo nele. Não é possível que não tenha justo essa! Dei uma busca por “Metropolis” e veio mais de 20 mil resultados… Fui numa ordem cronológica, só que minha paciência acabou lá por 1978. Aí, lá no pé da página achei o “Advanced Search”. Como eu ia apurar a pesquisa? Tem uns 20 campos de busca! Coloquei “Metropolis” e fui tentando ano a ano, começando por 1980. Nada. 1981, nada. 1982, nada. Relógio marcando 2h30 da manhã da terça-feira. Vou no 1983 e foda-se. Se não der, vou dormir e tento depois. Chegaram uns 40 resultados. Mas o “deus nerd” baixou na minha sala e ordenou: “vai nessa capa aí”. Nome da banda: Race. Nome do disco: “Race”. Faixa 1: “Metropolis”. No canto à direita, alguns vídeos do Youtube desse disco. CLARO que não tinha “Metropolis” ali. Fui pro Youtube na página do cara que postou as outras do disco. Achei uma tal “Metropolis”… Segundos de tensão e CARALHOOOOOO! O synthpop de batida seca, a guitarra solando, o teclado e o refrão “I can’t sleep tonight… in Metropolis”. A glória nerd! A redenção depois de 33 anos! A grande virada da maior derrota da história da cultura inútil! Dei um berro que fez Chulé e Dexter, meus cães, questionarem a sanidade do humano na casa. Escutei “Metropolis” pela segunda vez! Pela terceira, quarta, quinta… Converti do Youtube para MP3 e fui dormir. Passei o dia seguinte inteiro ouvindo a música! Mas a “missão nerdolândia” nunca acaba. Agora é preciso descobrir que grupo obscuro alemão foi esse Race. Mas a minha preguiça é muito maior. Daqui uns 33 anos eu procuro.

 

RACE – “Metropolis” (1983)

 

RACE – “Race” (o disco inteiro)

 

RACE – “Rockaway” (do mesmo disco, no programa “Musikladen” da TV alemã, em 3 de maio de 1984)

 

A página do RACE no Discogs:
https://www.discogs.com/Race-Race/release/5698895

 

PAULO CÉSAR MARTIN, 52 anos
Jornalista especializado em futebol e rock. Apresentava o programa de rádio Garagem com André Barcinski, Álvaro Pereira Júnior e André Forastieri. É produtor e pauteiro do setor de Esportes da TV Globo-SP desde 2006.

O GARAGEM: programa apresentado pelos jornalistas André Barcinski, Paulo César Martin, Álvaro Pereira Júnior e André Forastieri que fez uma mistura inédita no rádio brasileiro de rock alternativo e pop de vanguarda com cultura popular. Ao mesmo tempo em que mostrou novidades, o Garagem convidou personagens especiais da cultura brasileira. Todo programa teve um convidado para uma entrevista reveladora e fora dos padrões. O Garagem teve início em 1992 numa passagem de seis meses na Gazeta FM, de São Paulo. Em 1999, o programa acertou sua ida para a Brasil 2000 FM (SP) onde ficou até outubro de 2005. Entre 2006 e 2013 ficou na Rádio UOL.

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