frank

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acompanho o trabalho de spencer amereno desde o tempo em que ele comandava o balcão do myny bar, lugar que fez história, mudando o cenário da coquetelaria brasileira para muito melhor, iniciando um caminho sem volta, embora ainda não exista um bar onde se beba com excelência, por preço mais acessível.

mas aí o bar fechou e o barman em questão foi trabalhar em um shopping center, causando em mim uma angústia danada. como a bebida era muito boa, ia de vez em quando prestigiar o trabalho dele, apesar da náusea que o logradouro causava em mim.

quando soube que havia a possibilidade de transformar o bar do maksoud plaza, o velho batidas e petiscos, em um bar de coquetelaria e que eu poderia indicar um comandante pra essa operação, foi em spencer que pensei.

barman apresentado ao dono do hotel, negócio fechado e pronto. agora era só esperar pela inauguração, pra beber direito em um bar decente, a uma quadra da paulista. como cliente, claro. sei bem de que lado fica o meu lugar no balcão.

não conheço poltronas mais confortáveis na cidade, o que contrasta com os banquinhos que remetem aos puteirinhos da rio branco, na boca do lixo, de tão desconfortáveis. como o bar abriu com muito movimento, é necessário ir fora do horário de pico, pra garantir bom lugar. até aí, não me incomodo. dificilmente você me verá na fila de um restaurante de sucesso às 21h de um sábado qualquer. procuro usar o que a cidade oferece dentro de suas melhores possibilidades.

o primeiro incômodo relevante foi notar que pode-se não beber tão bem se não for atendido pelo próprio spencer, o que diminui o espaço útil do balcão pra uns três lugares, pra quem não quer correr risco.

como o bar bomba muito de quinta à sábado procurei frequenta-lo de domingo à quarta. só que spencer costuma folgar em pelo menos uma dessas noites. e, se estiver na casa, tem o inusitado hábito de descer para a backstage, onde acompanha a produção de gelo e suco de tomate, enquanto as vítimas da noite gastam bom dinheiro no balcão, nem sempre com coisa boa.

catzo.

antes que se pronunciasse impeachment foi organizado um grupo virtual  com bons bebedores, com o propósito de mapear o bar. era comum ler mensagens como “ó, cheguei às 18, mas ele tá de folga. não venham.” ou “ele ta aqui, mas os drinks estão demorando 50 minutos pra sair” e também “iih. ele já desceu pra fazer gelo. hoje, só amanhã.”

apesar de tudo, insisti em ir ao bar por mais uns meses. às vezes, no absurdo intervalo entre um drink e outro, me ofereciam um shot qualquer, que a divertida equipe brindava e bebia junto. não sei se sou muito tradicionalista, mas não me dei muito bem com a situação onde membros da equipe do bar – incluindo por muitas vezes o próprio chefe – fica mais bêbada que a maior parte da freguesia.

no frank a conta é item obrigatório a ser conferido. um rolê que já não é barato pode sair por valor maior que o consumido. curiosamente nunca erraram pra menos minha conta. é o velho é louco mas não rasga dinheiro, em sua pior forma.

em minha última visita tive a honra de ver a nova carta de drinks da casa, que está muito boa, mas começa com uma frase escrita qualquer bobagem do seguinte naipe:

um bom drink demanda tempo pra ser confeccionado

acho que o pessoal do subastor não curtiria essa frase, pois entrega coquetelaria de alto nível com metade de barmen em um lugar com o dobro de lugares que o frank por um preço mais camarada. sem contar que nunca erraram na minha conta.

de qualquer forma, em minha visão, um aviso desses subestima a inteligência do bom bebedor e foi o que faltava pra eu desistir do bar.

claro que fica a sensação de enorme derrota porque, afinal, sem eu não existiria o frank bar. tenho parcela de culpa na história.

mas quem falou que seria fácil?

se ainda indico o bar? depende do que você espera de um bar. se quiser ver e ser visto pagando de don draper genérico com um copo na mão, pode ser uma boa. se estiver bebendo muito pouco, o bar também te atende, já que é mais fácil arrumar o menu inteiro do paris 6 do que um drink chegar rapidamente.

e cada vez mais a boêmia te suga pra dentro de sua própria casa.

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