QUE VIVA MÉXICO!

Clientes assando a carne que acabaram de comprar na feira de Tlacolula

Acabo de voltar de um giro de duas semanas pelo México com a família. Minha ideia era fazer um textão sobre a comida que encontramos em quatro cidades mexicanas – Cidade do México, San Miguel de Allende, Guanajuato e Oaxaca – mas a verdade é que comemos tão melhor em Oaxaca que decidi concentrar o texto nesta cidade. Oaxaca é espetacular, cheia de igrejas de 600 anos, templos pré-hispânicos, com um povo simpático ao extremo e alguns dos melhores restaurantes que tivemos a sorte de conhecer em qualquer lugar do mundo.

Barraca de chiles

Pra começar, a melhor dica de toda a viagem: a feira dominical de Tlacolula, cidadezinha a 27 km de Oaxaca. Dá para ir de ônibus por 15 pesos (3 reais) ou, se você estiver em quatro pessoas, como nós, pegar um táxi, que sai por 150 pesos (30 reais). Aliás, táxis são ridiculamente baratos em todo o México.

Feira de Tlacolula

A feira é sensacional: quarteirões e mais quarteirões de barracas vendendo absolutamente tudo. Claro que há as inescapáveis vendinhas de DVDs piratas e pacotes de cuecas, mas quanto mais perto você chega do prédio no centro do mercado, mais legais ficam as ofertas de comidas e bebidas: chicharrones (pururucas do tamanho de tapetes), tejate (uma bebida pré-hispânica à base de milho e cacau), chapulines (gafanhotos ressecados e temperados com limão, alho e, às vezes, pimenta), perus e galinhas d’angola vivos, vários tipos de chocolate em pó para tomar com água ou leite, infinitas variedades de pimentas, temperos, molhos e ervas, um milhão de tipos de nopal (cactus usados fartamente na culinária local, especialmente em saladas) enfim, uma overdose embasbacante de aromas e sabores.

Barraca de chapulines (gafanhotos)

Vimos pouquíssimos turistas lá. Segundo nos disse o dono da pousada onde ficamos, a feira reúne o pessoal de cidadezinhas e povoados de toda a região de Oaxaca, e a variedade étnica é impressionante. A região tem 16 diferentes grupos étnicos e mais de 200 dialetos. Você olha para todos os lados e só vê figurantes de faroestes do Sam Peckinpah.

Barraca de chicharrones

Na parte coberta do mercado, dezenas de carnicerias vendem carne, chorizos, tripas e morcillas. Você compra, assa a carne na hora em uma churrasqueira e come acompanhado por tortillas fresquinhas (sempre tem uma velhinha com uma bacia de tortillas quentes!) e pelas salsas mais assassinas desde o nascimento de Montezuma.

Carniceria na feira de Tlacolula

No meio da tarde, sentamos num “comedor” e pedimos alguns pratos típicos. Nossos filhos, de quatro e oito anos, comeram salada de cactus (nopal) e deliciosos tacos de carne; minha mulher pediu um caldo de pollo que levantaria até a equipe econômica da Dilma, e eu mandei uma sopa de menudos (miúdos) sensacional e uns tacos de tripa com uma salsa assassina que deixou meu queixo anestesiado por umas seis horas. Tudo regado a Água de Jamaica, um chá gelado de hibisco.

 

RESTAURANTES EM OAXACA

Até botar os pés em Oaxaca, nunca conheci uma cidade onde todos os restaurantes fossem bons. Numa tarde, assistimos a uma lucha libre na arena local. Na saída, começou um temporal (raríssimo na região em abril) e tivemos de nos abrigar no primeiro boteco que encontramos. Pedimos umas tlayudas (pra não precisar descrever todos os rangos, achei um site http://uncorneredmarket.com/oaxaca-food com o que interessa) de entrada, o sujeito trouxe um pratinho com cubinhos de côco dentro de um molho delicioso de limão, alho e especiarias. Repetimos três vezes a entrada.

Vieiras no Mercado San Juan de Pugibet, Cidade do México

Impressiona também o preço acessível dos restaurantes: excetuando uma noite em que jantamos no lugar mais bacanudo da cidade, a Casa Oaxaca de Alejandro Ruiz, um chef conhecido do pedaço, e gastamos 2 mil pesos (cerca de 400 reais para quatro pessoas), nenhuma refeição para a família saiu por mais de 500 pesos (100 reais). Uma pechincha.

Fizemos a maioria de nossas refeições em feiras e mercados, onde você pode comer que nem um rei por 15 reais. Mas também conhecemos alguns restaurantes que valem a pena:

CASA OAXACA

Considerado por muitos o melhor restaurante da cidade, é do chef Alejandro Ruiz, que já foi entrevistado pelo Bourdain e é guia de 90% das reportagens de TV sobre a comida local. Foi nossa refeição mais cara no México (uns 400 reais para quatro pessoas), mas uma pechincha se levarmos em conta que pedimos entradas, vários drinks, três pratos principais e sobremesas. De entrada, taquitos de pato e tostadas de frutos do mar com chipotle; de pratos principais, um cozido de língua, polvo grelhado com molho de alho e coelho com mole verde. Tudo delicioso. Mas o destaque foram os drinks, incluindo um de mezcal com flor de cactus, um dos melhores que já tomei.

LA BIZNAGA

20160416_203942

O rango aqui foi tão bom que voltamos no dia seguinte. Comemos Sopa de San Jose (sopa de cogumelos), Tamal de guajolote (peru) com mole negro e frutas secas, Tlayuda com queijo de cabra e chorizo, Zandunga (frango com mole de goiabas e banana) e de sobremesa um pudim de coco com calda e cacau e nozes. Sensacional.

LA CORONITA

Alberto, o taxista, mostra seus irmãos, Endeavour e Fantasma Jr.

Se não fosse pela indicação desse belo moçoilo da foto, o taxista Alberto (que era irmão de Endeavour e Fantasma Jr., dois luchadores que vimos em ação em Oaxaca), nunca teríamos posto os pés no La Coronita, um restaurante um tanto sombrio dentro de um hotel no centro da cidade. Mas a comida é boa demais, e a especialidade é um pratão com sete tipos diferentes de mole, um molho bem denso e que pode ser feito com vários ingredientes. Provamos os moles Negro (com cacau e vários tipos de pimentas), Colorado, Poblano, Verde e outros, cada um melhor que o outro.

 

OUTROS DESTAQUES DO RANGO NO MÉXICO

 Feira de Tlacolula, na regiao de Oaxaca

CIDADE DO MÉXICO

Cuidado ao pedir dicas de mercados na Cidade do México, ou você pode acabar no Mercado Roma, um nauseabundo antro yuppie que lembra os lugares mais mauricinhos da Vila Olímpia. Bem mais legal é o Mercado San Juan de Pugibet, no Centro. Mas atenção: há outro mercado chamado San Juan a três quarteirões de distância, onde você vai achar um monte de barracas de tacos, carnitas e tortas.

No San Juan de Pugibet você encontra excelentes barracas de peixes, carnes, pimentas e temperos. No fundo do mercado há vários “comedores” que servem carnes exóticas – javali, jacaré e outros bichos fofinhos. Como minha mulher não come carne vermelha, nos esbaldamos numa peixaria onde você podia comprar todo tipo de crustáceos e comer ali mesmo. Fizemos um banquete de vieiras, ostras, camarões e alguns tipos de caramujos que eu nunca tinha visto. Preço: 550 pesos, ou 110 reais – para quatro!

Churreria El Moro

Para a sobremesa, o dono de uma barraca sugeriu a Churreria El Moro, no centrão da cidade, um lugar que desde 1935 serve chocolate com churros, uma combinação pela qual sou completamente obcecado. Eu moraria tranquilamente dentro do El Moro, comendo os churros sequinhos molhados no chocolate quente, doce e espesso, tipicamente espanhol.

 

SAN MIGUEL DE ALLENDE

A cidade é linda, mas uma tremenda armadilha de turistas, lotada de americanos aposentados e cardápios em inglês. Depois de penar à procura de um lugar que não oferecesse cole slaw como opção de acompanhamento para tacos, encontramos, por dica de um taxista, uma torteria chamada, adequadamente, Que Torta!. Tortas são sanduíches feitos em bolillos, um tipo de pão redondo e macio. As tortas são fartamente recheadas, e as mais deliciosas que provamos foram as de pollo à milanesa, de cogumelos e de porco, acompanhadas por sucos naturais servidos em jarras de um litro. Três tortas imensas e dois litros de suco de manga saíram pela enormidade de 180 pesos (menos de 40 reais).

20160415_161828

 

GUANAJUATO

Antes de falar qualquer coisa sobre comida, preciso dizer uma coisa: Guanajuato é a cidade mais linda do mundo. Das cidades que conheço, só Budapeste me fez parar tantas vezes em uma esquina qualquer, olhar para o visual e ter de segurar o queixo. O lugar é inacreditável: prédios de 500 anos ao lado de muros de 1500, tudo muito colorido, limpo e cheio de árvores; um povo festeiro e animado, que lota as ruas à noite para bater perna e ouvir grupos musicais tocando em frente ao lindíssimo Teatro Juárez. Se tivesse restaurantes melhores, seria o paraíso na Terra. Infelizmente não comemos tão em em Guanajuato, com exceção de uma dica preciosa do vendedor de uma loja de sapatos: a barraca de tacos de El Chino, localizada numa ladeira chamada Subida de La Mula. Nos fartamos de tacos de carne, frango e tripas, acompanhados de uma salsa à Chernobyl e refrigerantes locais de maçã, e gastamos 150 pesos (30 reais) para quatro pessoas. Pode nos aguardar que voltamos em breve, Chino!

Barraca de tacos El Chino, em Guanajuato

André Barcinski é autor do Guia da Culinária Ogra e enviado especial do Edifício Tristeza ao México

Comente mas se atente!