negroni está morto

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quem me acompanha há certo tempo bem sabe que cultivo histórias afetivas com campari e negroni desde a mais tenra idade. inclusive os anos e litros bebidos só reforçaram o hábito e desenvolveram o paladar pras essas e outras bebidas tão amargas quanto o fardo dessa vida vadia.

uma das coisas legais do negroni é que é facílimo prepará-lo, tanto que é muito difícil uma variação me agradar. se bem que a última versão que me encantou leva café e foi bebida quase que antes de ontem, o descrevi brevemente na última postagem antes desse escrito.

mas é curioso como o drink pegou aqui pra esses lados tropicais. me flagro dando risada sozinho – até porque é difícil mesmo estar com alguém – sempre que vejo pessoas que não tem a menor identificação com o drink tentando esconder a careta ao bebe-lo.

embora esse maldito sol infernal devesse inspirar mais o consumo de collins, juleps e caipirinhas, muitos insistem em se comportar tal como aqueles breguíssimos bebedores de barolo das décadas passadas, que ignoravam a existência de rieslings e outros vinhos que ornam mais com nosso clima tropical.

claro que há quem aprecie mesmo a parada amarga e esses tem todo meu respeito. eu mesmo gosto tanto que cheguei a ter um cachorro negro com o nome do cocktail em questão, por um curto período de cinco anos, pois ele morreu nessa última quinta-feira.

negroni deixou um irmão gêmeo, esse que vos escreve e considerável exército de fãs. era a alegria do tristeza, especialmente se o compararmos com o péssimo humor dos dois sobreviventes do apartamento 61.

sei que é um tanto estranho escrever esse desastrado modelo de obituário canino aqui. mas se você se atentar ao nome do site, até que é de se esperar textos desse naipe.

com um quadro clínico tão complicado quanto o do presidente tancredo neves, os últimos três meses foram bem tristes, comigo correndo inutilmente igual um bocó pra tudo quanto é lado. logo eu, que não tive competência de salvar meu pai, nem minha mãe. pobre negroninho.

lou reed dizia que seus cachorros são melhores que 90% das pessoas que ele conhece. engrosso o coro, adequando sua frase pra mim e acrescentando que esse edifício teve a honra de abrigar de maneira meteórica a melhor receita de negroni da cidade.

tudo isso pra dizer pra você beber e comer o que quiser, com óbvia personalidade. não seja um paga pau, bebida boa é bebida bebida. se tá quente pra porra e a sua vontade for a de mandar um mojito pra dentro, vai nessa, ninguém tem nada com isso. e, se conseguir, tenha bichos. porque ter cachorro é o maior barato, desde que se tenha também tempo suficiente e algum dinheiro pra cuidar dele.

eu beberei o defunto com bebidas amargas mesmo, porque essa é a minha vontade. shoyu vai de água fresca, que é trocada pelo menos uma vez por período.

o negroni está morto. viva o negroni.

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