the drinkers

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ontem, dentro do breve obituário do menino negroni, citei aqueles que bebem drinks amargos sem saber exatamente o porque, tal como os velhos fantasmas do século passado, que empunhavam seus imponentes cálices cheios de barolo embaixo de escaldante sol camusiano. sabe que começo a simpatizar com aquela clientela mais antiga do fasano, que bebia red label e foda-se? aliás, será que ainda estão vivos?

pra onde foram os bebedores de whisky?

pois acho que é possível se aprofundar pelo menos um pouco no assunto, com sua licença. porquê a era do smartphone mudou um tanto a maneira do afegão médio despejar sua lamentável e previsível carência, e bebida sempre gera assunto.

não sei se já existe nomenclatura adequada pro similar etílico ao famigerado foodie, podemos chama-lo de drinker? tenho certeza de que existe nome melhor, mas a invencível doença degenerativa que dizima meu sistema nervoso sem piedade não ajuda muito no processo de criação de apelidos, talvez esse departamento de neurônios tenha sido totalmente dizimado ainda na adolescência.

o drinker é uma espécie de oposto ao simpático barfly americano, esse que é primo de primeiro grau do bebedor de balcão de botequim carioca, aquele que emenda pão com manteiga com a primeira cerveja do dia, jamais artesanal.

lembrando que não estou aqui pra defender bebida ruim, tanto que cerca de 95% das cervejas artesanais brasileiras não me agrada. e também acho que um balcão de bar pode e deve ir muito além da bebida vendida. o rio de janeiro mesmo é o maior exemplo disso. lá é no balcão de botequim que se faz política, casa-se, separa-se, briga-se, vive-se.

porém o drinker não tem a menor capacidade de contemplação de porra nenhuma. munido de seu smartphone, gasta o tempo buscando receitas e ingredientes desconhecidos, para o fim de aterrorizar a vida do pobre bartender que o atende.

drinker gosta de pagar de especialista de forgotten classics e tirar fotos das bebidas, pra depois bebê-las como um autêntico velocista, para dar tempo da noite render outras publicações de meia tigela. a partir do terceiro drink, nem é preciso beber mais, basta postar. a real mesmo é que chegamos à deprimente era dos bebedores black mirror.

os netos daqueles velhos viajantes que deram a volta ao mundo sem assimilar nada  hoje bebem e postam drinks, são os turistas do bourbon & gin. a coquetelaria brasileira se vilaolimpiarizou antes mesmo de nascer, já que a oferta pra atender esse exército de lango-langos só aumenta aqui na aspicueltalândia. tudo isso com inusitada roupagem mandibulense e notas de coxipstirização neoclássica.

claro que existe o outro lado e de fato nunca se bebeu tão bem quanto atualmente. sem contar que sempre se pode beber em casa, hábito que recomendo não é de hoje. inclusive cheguei a erguer um singelo balcão no meu quarto, onde só entra quem convido.

e você? onde estará quando a tempestade drinker passar? bom, eu estarei moscando em algum canto de balcão de bar, bebendo um drink clássico ou até mesmo um whiskey, contemplando a luz que rebate nas empoeiradas garrafas da prateleira acima da bancada.

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