a era do fordismo

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não sei se é por obsessão, masoquismo ou coisa que valha. fato é que gosto de ir a bares e escrever sobre eles, inclusive os novos. talvez seja só porque ainda não perdi a esperança de achar um balcão pra chamar de meu. até agora alguns poucos bateram na trave, mas nada perto do ideal.

por ter me tornado um novo velho morador do centro paulistano, ainda não dei conta de ir em todos novos bares pinheirenses. o que farei, assim que minha paciência permitir, já que sei o quanto estão bombando e tenho que adequar meus horários pra ter experiência ao menos razoável, como fiz nas vezes em que fui ao peppino bar. o diabo é a condução lotada dos fins de tarde de terça, quando meu cachorro nem jantou ainda, mas uma hora acerto.

então, quando soube que abriu um novo bar a poucas quadras do edifício tristeza, fiz a poliana e fui lá acho que ainda na primeira semana de funcionamento, com indisfarçável otimismo descarado.

bar pequeno, luz muito boa, balcão beleza e banco onde infelizmente cabe apenas um pé no apoio. não sei se a ideia dos donos é oferecer inusitado entretenimento aeróbico de botequim ou a busca do giro rápido pela via do pouco conforto. arrisco dizer que não é nenhum dos dois, que é mera opção estética tosca.

pra beber, cinco drinks autorais e mais um especial do dia, que estava mais doce que o merengue de frutas vermelhas do amor aos pedaços na noite em que fui. um dos barmen reparou na minha cara de vômito e teve a gentileza de troca-lo prontamente por outra coisa, um desequilibrado e alcoólico troço chamado bunkishi, composto por infusão de bourbon com lapsang souchong, peychaud’s bitter e açúcar orgânico. fui educado, falei que estava bom e encarei.

o segundo drink, batizado com o nome da casa, leva manjericão, limão siciliano, infusão de gin com gengibre, açúcar com chai masala e gelo de máquina, desses que diluem a bebida muito rapidamente e me fazem beber numa velocidade de alcoólatra de saloon. aliás, esse é o gelo oficial dos manos. mas foi o melhor da noite. fresco, saboroso, equilibrado. pena que tive que virar em dois minutos, pro mesmo não se transformar em um suquinho.

ainda segui a sugestão de alguém e pedi um sylvia, composto por infusão de rum ruim com chai masala, extrato grosseiro de gengibre que arranhou minha garganta, limão, tônica ordinária e açúcar demerara. ideia boa e receita ok, se feita com ingredientes de melhor qualidade, pode melhorar e até valer a pedida. esses drinks descritos saem por menos de 30, mesma média de preços cobrados no bar do jiquitaia, que também fica no centro, mas onde bebe-se infinitamente melhor.

não gostou da carta autoral? prefere um clássico? eis o inacreditável aviso escrito no cardápio:

fora do buraco

drinks fora da carta atrapalham um pouco o fordismo do bar, por isso cobramos mais, mas fazemos com maestria.

ui.

desde o último cardápio do frank – onde avisam que um bom drink demanda tempo pra ser produzido, não admitindo assim o monumental problema de atendimento que transformou o famigerado bar numa piada nacional – que não via algo tão arrogante e desastroso.

prefere uma cerveja? pois saiba que a oferta é cretina, com direito a stella artois e corona. feliz vila olímpia a todos.

se bater a fome, a coisa consegue piorar ainda mais, já que o poço nunca tem fim e o buraco é mais embaixo. não quis conferir nenhuma das três opções: sanduíche de salmão de cativeiro com cream cheese (!!), terrini de grão de bico com sal do himalaia e onigiri com umê. os dois erros de grafia são cortesia da casa e nesse parágrafo mando um grande abraço pro nobre intelectual que revisou o cardápio.

os bons cafés dispostos na prateleira funcionam como mera decoração coxipster, já que o bar não serve café. e isso me irritou um bocado, hora de ir embora de onde nunca não deveria ter ido.

mas o fato do lugar que pra mim mais parece um pesadelo em forma de bar agradar a muitos – estava bem lotado na noite de minha visita – mostra como não sou parâmetro de mercado e que meus quinze minutos já passaram, que minha boêmia estacionou nos idos do século passado.

o que me estimula a fazer melhorias no bar aqui do edifício e sair cada vez menos. sabe que até fiquei com vontade de comer um buraco quente? nessa semana provável que o faça, se a melancolia não impedir a ação.

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