a crítica gastronômica está morta

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na última semana publiquei um vídeo em que falo brevemente sobre a crítica gastronômica no brasil. agora quero me aprofundar pelo menos um pouco no assunto aqui nessa mídia, onde me sinto mais à vontade.

o motivo pelo qual a pauta vem à tona é que não aguento mais me pedirem pra eu resenhar o novo restaurante de andré mifano, sujeito que realiza um trabalho do qual não nutro a menor simpatia. de maneira que só iria ao lilu se fosse remunerado para isso, e é aqui que chegamos ao ponto.

qual seria o método mais justo de avaliação desse novo restaurante? não falo de uma simples impressão – que é o que costumo construir aqui nesse edifício – mas sim de uma crítica gastronômica. eis os passos que eu tomaria:

  1. esperaria pelo menos 3 meses para realizar a primeira visita, pois nem o chef conhece a própria cozinha antes disso. e aí já notamos uma primeira dificuldade, porque as pessoas anseiam por novidades, ainda mais nesses tempos de smartphone.
  2. esse prazo passado, iria com mais uma pessoa, no começo da semana, em circunstância favorável à casa. pediríamos couvert, duas entradas, dois principais, duas sobremesas, água, dois cocktails, 1 garrafa de vinho e 2 cafés.
  3. voltaria no sábado, horário de pico, com mais três pessoas e pediria quase o cardápio inteiro. sei que a casa sugere que os pratos sejam compartilhados, mas é preciso saber como esse serviço funciona em um mesa média.
  4. iria sozinho pra testar o almoço executivo. e mais outro dia pra pedir os pratos da noite nesse período.
  5. assim como o anonimato hoje é utópico, é possível visitar o restaurante quando o chef está ausente, por motivo de folga ou fuga. isso é muito fácil checar e acho de importância fundamental para uma crítica bem fundamentada.

pra esse sonolento pacote básico, falo do investimento de aproximadamente dez refeições – minha e dos meus colegas – onde pediríamos desde os itens mais em conta até os mais caros, inclusive as bebidas. até porquê se tiver vinho caro, tem que saber servir. e se cobrar a rolha – olha aí outra despesa, a da compra do meu próprio vinho – teria que avaliar esse serviço. pra um restaurante de cozinha contemporânea na vila madalena, estimo que essa operação tenha o custo aproximado de dois mil reais, sem chutar o balde. ninguém aqui bebeu um bom bordeaux, creia-me.

isso apenas pra uma avaliação, entre tantas outras necessárias. agora coloque nessa conta uma revisita ao fasano e despesas de viagens com o fim de ir em restaurantes premiados, pagando as contas, sem farra ou jornalismo raso. e nem chegamos ainda na óbvia remuneração do profissional envolvido.

noves fora, avalio que um crítico gastronômico mantido sob essas condições sairia pelo menos por uns quinze mil reais, fora os malditos tributos trabalhistas. e é aqui que chegamos a outro ponto da questão.

quem quer saber? toda a imprensa gutenbergiana está em queda livre, em caminho irreversível, não é de hoje e não é só no brasil. mesmo que esse romântico cenário de trabalho existisse, o público médio seguiria preferindo ler legenda de foto no instagram a um texto.

claro que sempre existe o risco de um milionário investir em conteúdo, assim como moreira salles fez com a boa piauí, mas até isso é cada vez mais improvável, o que é uma pena.

apesar de não termos nada próximo de uma crítica clássica, é possível garimpar e achar uma coisa ou outra, algum tipo de texto que lhe soe agradável. basta a você encontrar um autor com quem se identifique e conferir a dica por si só, pra chegar à suas próprias conclusões, já que gosto pessoal é um troço obviamente indissociável.

aproveito esse para agradecer todas sugestões para viajar. mas aprendi com meu pai que, quando o dinheiro está curto, o melhor a fazer é não se mexer muito. se a situação melhorar, dou um rolê. mas, entre nós, isso nem é importante.

afinal, eu sou só o cara chato do café.

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