restaurante picchi

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são paulo, túmulo do macarrão.

verdade essa que me encobre de vergonha, dada a enorme colônia italiana presente na cidade. claro que o cenário evoluiu um tanto desde os anos 80, quando o paulistano médio saía de casa pra comer torradinha de alho com azia e massas que jogavam mais pesado que júnior baiano no auge de seu esplendor físico.

mas, embora estejamos em inegável bom caminho, um cenário ideal ainda me parece tão distante quanto a família collor está da distinção e elegância, de seo lindolfo ao jovem victor 212.

e é nesse ponto da história que entra pier paolo picchi, grande cozinheiro e notório colecionador de fracassos. cheguei a ir mais de uma vez em pelo menos dois de seus endereços onde não entrava sequer um lazarento. o que me dava uma raiva danada. jantava super bem, mas acabava engasgando com a maldita sensação de injustiça que imperava no salão. afinal, nem sempre sucesso vem acompanhado de qualidade.

don’t believe the hype

algum tempo se passou e hoje paolo está bem estabelecido em um flat localizado em plena oscar freire. o restaurante lota, o chef está feliz e, o melhor de tudo, sua comida continua gostosa, com o porém da precificação do menu caprichar na antipatia.

nessa semana mesmo dei as caras por lá. após o bom couvert, considerei pedir um dos sucessos da casa, o pici – essa que é uma massa artesanal típica da toscana, qualquer trocadilho é mera coincidência – com linguiça, peperoncino e feijão branco. mas há outras coisas boas, como o espaguete com vôngole, pancetta e uni. o cacio e pepe não arrisquei, porque me sentiria um otário pagando 80 pilas num prato com ingredientes tão simples e que nem são tão caros. mesmo em um cardápio cuja simpatia é ausente esse preço me soou discrepante em relação aos outros itens, de maneira que não me segurei e tentei dirimir minha dúvida e também compartilhar a angústia com o maitre. quem sabe esse prato em especial não serviria uma pequena tropa afegã? eis a transcrição do breve diálogo:

– boa noite. por favor, por que o cacio e pepe é tão caro?

– é que ele é feito com pecorino italiano, senhor.

– ok.

QUE BOM QUE O PECORINO NÃO VEM DA SERRA DAS ANTAS, NÉ?

claro que o negrito acima não foi verbalizado, talvez pela timidez gerada pela pouca quantidade de álcool ingerida, já que os vinhos são caros e a coquetelaria é tão boa quanto a praticada no lobby do íbis hotel unidade novo osasco.

acabei optando por um rigatoni com tomate, guanciale, berinjela levemente defumada e, veja só, pecorino. esse último ingrediente servido na mesa a rodo pelo garçom, se o cliente assim desejar. a massa, como de costume, estava muito acima da média praticada na maior parte da concorrência.

conheço quase todas sobremesas da casa e elas vão desde corretos doces de cozinheiro – como o trio de chocolate amargo que pedi – até o pior tiramisú jamais feito na história do planeta. tudo na casa dos 30 conto. me desculpe, paolo. mas com o (alto) nível de qualidade apresentada em sua comida e os preços que seu restaurante pratica, eu quero sobremesa de chef confeiteiro, inclusive com a assinatura dele no cardápio. ah. e também não quero finalizar meu jantar com café expresso (escrevo propositalmente com x, porquê fiquei com a impressão de que ele foi tirado às pressas, se distanciando assim do nobre espresso italiano) meia boca de 8.50. pra cobrar preço de restauração fina, tem que entregar produtos com notável padrão de excelência, do começo ao final do jantar.

a conclusão que tiro – após algumas poucas e boas visitas –  é que o picchi é um restaurante que vale a pena pra quem procura boa comida, mas não se importa com altos valores envolvidos na operação de pagamento do jantar e nem com coquetelaria tão tosca quanto a confeitaria praticada na casa.

e assim continuamos, sem um italiano que sirva um (ótimo) serviço completo na cidade. talvez o que mais se aproxime seja o fasano, esse que pratica preços fora da realidade terráquea e trabalha com café – observem, creiam e reflitam sobre as duas próximas palavras – do centro.

são paulo, capital gastronômica? falta muito, damas e cavalheiros.

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