a tijuca resiste

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dessa vez a desculpa para ir à tijuca foi a discussão da possibilidade da hipotética produção de um livro que, veja só, surpreendentemente já começou a ser preparado e promete ser mais um estrondoso fracasso editorial, daqueles com potencial para quebrar qualquer editora. quer dizer, isso se ele não passar despercebido, já que fracassar no processo da derrota também é importante.

me hospedei na casa dos melhores anfitriões do mundo – eduardo goldenberg e flavia piana – e meu quarto tinha vista para a porra do cristo e o pão de açúcar da praça afonso penna, onde velhinhas se exercitam de dia e seus senhores praticam a jogatina a partir do cair da noite. na praça, não no mercado, que inclusive é bem ruinzão.

por cinco dias e quatro noites considerei a hipótese de fazer a barba no salão do raul, que fica ao lado de um bar que serve um magnífico jiló, que por sua vez se localiza em frente à histórica sede do imortal america, dos ilustres torcedores josé trajano e felipe quintans.

felipe que hoje comanda meu botequim preferido no brasil, o bar madrid. lá bebe-se uma excelente batida de maracujá, come-se gostosos pasteis de jiló com linguiça e deixa-se passar o tempo, arte essa que muitos de nossos contemporâneos deixaram de dominar.

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a tijuca é o melhor que o carioca pode oferecer no rio de janeiro que mais aprecio, o pedaço que vai muito além do balneário e dos idiotas travestidos com seus famigerados chapéus panamá. pra chegar a tal conclusão, basta circular pelo bairro durante a semana e comer um absurdamente barato bolinho de bacalhau no aldila e um suculento sanduíche de carne assada no niki bar, esse que tem uma estufa no balcão que incorpora perfeitamente o espírito tijucano.

foi no caminho entre um botequim e outro que conheci genaro, o último tripeiro da cidade. tripeiro é aquele que vende miúdos de boi num carrinho, similar ao bucheiro paulista. genaro vende fígado, bofe, rim e outras coisas deliciosas, que me remetem a um saudoso passado. a dignidade de como ele encara seu ofício em extinção por décadas me comove feito o diabo.

e o que dizer de joel, o robert de niro tijucano? aquele que, além de comandar um belíssimo botequim, onde vende obrigatórias porções de cu de frango e as doses de campari mais bem servidas da região, prestigia todos seus colegas, usando seu tempo livre nos botequins vizinhos. sustentabilidade é isso aí.

também matei a vontade que tava há dois anos – a última vez que tinha ido à tijuca data de 2015 – de comer o melhor frango assado do mundo, no rex, botequim ali na clássica rua do matoso. assado na única tv de cachorro com brasa que já vi. a ave em questão segue ímpar, impecável, irresistível.

assim como a empada do bar do bar do chico, que roubou há anos o salgadeiro do salete. já o maracujá da casa caiu um bocado e deixou a impressão de que o mesmo é feito com maguary. ele até tem uma versão cinco vezes mais cara da bebida, mas me recusei a prová-la. o maracujá é uma instituição carioca e deve ser preservado tal como em sua origem, gostoso e BARATO.

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o tijucano é tão privilegiado que pode ir e voltar do maracanã caminhando. oportunidade que dessa vez não perdi, numa tarde em que vi o flamengo se consagrar campeão carioca – apesar da falta de capacidade técnica de seu fraquíssimo goleiro, o mureta – em cima de um fluminense de atuação tão covarde que de certo fez telê santana, o fio de esperança, se remoer no túmulo.

pra comemorar o título, o casal anfitrião me levou ao mitsuba, restaurante japonês com esplêndida oferta de peixes. ali, se sentar no balcão e encarar o itamae olho no olho, come-se muito bem e foge-se das roubadas do cardápio. se morasse na tijuca, jantaria lá toda semana e ainda os convenceria a adaptar a temperatura do shari ao meu paladar, por puro egoísmo.

a tijuca lembra muito a lapa paulistana que não existe mais, lugar onde se pratica boêmia diurna, emendando café ordinário com cerveja gelada nos botequins de todas esquinas. tirando o centro paulistano, onde moro e me reencontrei, lá é a única possibilidade de moradia que considero de maneira mais séria e real.

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claro que o inevitável crescimento traz algumas macumbas pra turista, capitaneadas pelo péssimo aconchego carioca, que já foi bom e que embora talvez até tenha alcançado algum valor histórico no bairro, há algum tempo se dedica a trabalhar como se estivesse na BARRA da tijuca, atendendo a tudo quanto é tipo de zumbi, que não liga a mínima pra qualidade dos produtos oferecidos.

mas, pra cada negócio cretino desses, existe um senhor perigosamente armado com chinelos de dedos, bermuda e pochete embaixo da pança, empunhando um copo de cerveja gelada como o calor camusiano local exige. se houver guerra contra o progresso, pode preparar mais maracujá, pois me coloco à disposição para engrossar as fileiras do fantástico exército de blancleone.

a tijuca é a resistência.

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