vegano, bem vindo à sua fita

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Há poucas coisas que eu respeito menos do que o veganismo: uma delas é a opinião gastronômica de um vegano. Sabe por quê? Porque eu nunca vi um vegano falar mal de um restaurante vegano. Eles topam o convite na hora, para qualquer lugar que seja veganinho. Nunca você vai ouvir “Ah, putz, mas lá não é bom. Tem outra sugestão?”. Não tem crivo, é sempre e tudo ótimo. Uma rápida pesquisa no Facebook e a menor nota que encontrei prum estabelecimento do tipo foi 4,7 – a maioria é 5 estrelas. A mesma nota 4,7, aliás, é a maior entre meus 10 estabelecimentos favoritos do país. Então, das duas, uma: ou a consistência culinária de todos os restaurantes veganos do planeta é absurda; ou vegano come mal pra burro. Não fica muito difícil matar a charada.

Neste momento, vegetarianos estão soltando um “ufa, não é comigo”. Quase, amigo. Como vegetarianos são menos radicais no ideal, também são menos radicais nas opiniões. Até conseguem falar mal de algumas coisinhas. Mas vocês se parecem muito entre si. E os ovolacto-insira-mais-um-item-vegetarianos, ainda mais brandos, pelo menos têm a prudência de não excluir manteiga, ovo e queijo da mesa. Dá até para ir num italianinho. Mas estão todos quase no mesmo lugar da escala de péssimos comedores.

Um dos motivos é simples: veganos estão mais preocupados com os ingredientes que não estão no prato do que com os que estão. É uma dieta baseada no que não está lá. Seria mais honesto se dissessem “que delícia esta ausência de porco!”, “uau, amei esta falta de manteiga!”, é o prazer pelo vácuo do sabor, não pelo sabor em si. Não sei como ainda não inventaram uma ração vegana para humanos, daria na mesma, seria sucesso.

O louco é que, pise num estabelecimento dessa turma, eles gostam de verdade, não é que ingerem quietinhos e não maldizem para não depor contra a causa: as refeições são cheias de “hummmm”, “delícia”. Imagina quando souberem que é mais gostoso ir a um restaurante não-vegano bom e só pedir sem carne. Uma porção de couve em qualquer lugar médio que sirva feijoada dá de dez na maioria dos restaurantes deles.

Mas, enfim, se eles adoram aquelas gororobas, sejam felizes.

Pode notar: numa mesa em que há carnívoros e não-carnívoros, o melhor senso crítico sempre virá dos primeiros. Carnívoros conseguem admitir que escolheram o prato errado, que erraram a mão no sal, que a carne não ficou lá essas coisas. Ou sabem ficar em silêncio. E taí um negócio que veg***s de todas as sortes não sabem fazer: silêncio. Primeiro porque ele vai fazer questão de te informar – e ao garçom e a todo mundo mais que for possível – das preferências/restrições gastronômicas que tem. Segundo porque, pode esperar, vai ter palestra. E terceiro porque (isso é batata) o prato de todo mundo vai chegar, a galera vai comer, e o filho da puta vai ficar gemendo de prazer, que é para todo mundo ouvir que “SIM, UMA REFEIÇÃO PODE SER DELICIOSA SEM CRUELDADE COM OS BICHOS”. Até pode, mas não carece.

É como se o cara precisasse ficar eternamente justificando que a dieta deficitária dele não implica déficit de sabor. Ora, como não? Vamos fazer uma troca: eu aceito que sua dieta faz um mundo melhor, você aceita que ela te faz um cidadão que come pior. Temos um trato? Não, não temos. Porque é neste momento em que começa a palestra. Eu já sei o Power Point de cor.

E preciso falar mais uma coisa, que provavelmente os amigos não falam: vocês são um incômodo social, um fardo, um motivo de preocupação. É um saco chamar um vegano/vegetariano para jantar na sua casa ou em qualquer lugar. A gente se preocupa, compra uns legumes a mais, usa e lava mais louça para servir uns quiabos, panela diferente para fritar as coisas. É uma volta que a gente dá, viu?! E eu já tô ouvindo daqui aquela balela de “ai mas a gente nunca pede pra cozinhar algo diferente”, “não precisa se preocupar”, “se eu não gosto, eu não como ou já vou jantado, nunca reclamo”. É o passivo-agressivo gourmet – como se dissessem “tá tudo bem, eu não ligo de sofrer”. Não quebra meu coraçãozinho assim. Porque só falam isso quando a gente prepara algo a mais, um mimo. Quando colam no jantar e descobrem que não tem nada feito especialmente pro seu capricho alimentar, é sempre aquela cara que nos acusa de negligência.

Ainda assim, amigo carnívoro, considere-se sortudo ao receber um vegano para jantar, porque isso significa que você não está jantando na casa dele. Ufa! Eu adoro vegetais – como moro sozinho, em geral mato uma bandeja de jiló refogado, de quiabo, de abobrinha, numa sentada só, que é para não sobrar. E isso me basta como refeição, não preciso de carne em tudo. Mas, em vez de fazer um berinjelona firmeza na brasa, no forno, uma salada gostosa, um macarrão ao alho e óleo, o que o amigão verde faz? Uma tentativa de emular comida de carnívoro, só que sem bicho. Malditas coxinhas de jaca, quibes de quinoa! Mano, não fode, a gente sabe comer melhor do que você. Respeita aê, joga simples. Respeita pelo menos o pobre coitado do vegetal, o fazendeiro que plantou com carinho. Não tô nem pedindo para me servir uma carninha (já que eu te servi aquela salada exclusiva lá em casa). É só não foder. Lembre-se de que você é contra maus tratos aos animais e me inclua nessa manada.

Eu sei, eu sei, generalização indevida, é claro que você não é como esse vegano médio. Você sim sabe comer e cozinhar. Claro. Não tenho nada contra, até tenho amigos. Aliás: beijo, Isa, te amo. #paz

Danilo Nakamura

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