estação capivara

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quando conheci rodrigo felício ele cozinhava pra absolutamente ninguém em um restaurante abandonado nos jardins e preparava uma sardinha na brasa tão gostosa que me acompanhará na memória até o fim dos meus dias. mas a verdade é que ele já não estava mais entre nós. na época conversamos bastante sobre a falta de perspectivas no cenário gastronômico brasileiro, partindo daquele famigerado restaurante de apenas 3 letras, lugar que inclusive trouxe considerável desgosto profissional ao nosso moribundo herói.

alguns anos se passaram e o reencontrei no balcão de um simpático bar pinheirense, onde ele me confidenciou que estava à busca de ressurreição em forma de pizza, num trabalho lindo de doer. de imediato o alarmei que alguém que tem a moral de batizar um comedouro com a nomenclatura carlos não pode ser de inteira confiança. mesmo assim ele seguiu seu caminho, de maneira um tanto destemida e deveras obstinada.

de fato jamais houve na cidade uma pizza de nível tão alto quanto a servida na carlos. molho de nobres tomates frescos e impecáveis, coberturas saborosas e equilibradas, as pizzas beiravam a perfeição. de quebra ainda o nosso célebre chefe desenvolveu a única salada de carpaccio possível, com ingredientes de raríssima qualidade e técnica única.

infelizmente em questão de poucos meses o infame proprietário se uniu a um temível vilão argentino e o sonho de uma noite de verão se tornou um longo e tenebroso inverno, com ingredientes de terceira que criavam produtos de oitava categoria. tudo em nome do lucro, em um monumental pau na bunda do cliente, que passou a se tratado como otário. não dava mais pra rodrigo, morto outra vez.

mas quantos óbitos um homem é capaz de suportar? e se for possível escolher um habitat em forma de limbo para praticar o utópico exercício de morte em vida?

a são paulo que mais gosto é a de joão antônio, essa que começa no terminal luz e segue a linha do trem até a estação presidente altino, sem sequer uma subida. e é no centro nervoso desse nostálgico universo paralelo que se localiza a histórica barra funda, onde fica a gloriosa sede do anhanguera e agora também o capivara society club.

não se tem notícia sequer de um peixe que tenha morrido à toa dentro daquele perímetro que funciona com uma porta fechada e outra meia aberta, de maneira pouco convidativa, durante as noites de terça à quinta e aos almoços de sábado. os cardápios são divulgados nas mídias sociais, conforme a melhor oferta disponível de ingredientes do dia.

o capivara tem saído muito em tudo o quanto é tipo de mídia e isso tem angustiado um bocado o amigo cozinheiro, que já disse que a qualquer hora dessas se suicida de novo, pra voltar a ser músico e não ter que lidar com público.

de maneira que recomendo a ida ao bar, levando em consideração as seguintes regras:

1 – vá cedo, assim que o boteco abrir. se isso não for possível, deixe o rolê pra outra noite
2 – privilegie a solidão. no caso de não aguentar ficar sozinho, vá no máximo com mais uma pessoa. se preferir andar de galera, vá ao ráscal
3 – a comida de rodrigo felício implora por jerez. e lá tem, peça uma garrafa e eleve seu espírito
4 – fale com a cozinha apenas o necessário. aliás, ideal é nem falar nada com ninguém. cale a boca, contemple o silêncio
5 – os pratos são pequenos e delicados, comer o menu inteiro é uma tarefa a ser desbravada, vá com apetite
6 – não abra mão dos queijos e nem do excepcional café coado da casa

durante a semana passada tive uma gripe forte e uma febre filha da puta. já essa semana começou ainda pior, com diagnóstico de pneumonia dada por um jovem médico que aparentemente não me internou pra eu não ocupar leito de hospital público, com tanta gente em estado mais grave.

daí que, como considero boa comida algo sagrado, já cheguei no bar cogitando celebrar meu velório por lá, evento que o chefe aceitou de prontidão, só nos basta decidir de que maneira o mesmo será realizado.

então, antes que o diabo saiba que estamos vivos, aproveitemos a boa cerimônia que deve ser uma refeição no capivara. façamos com que essa encarnação profissional de rodrigo felício valha muito a pena, pra todos nós.

e que a última refeição na terra seja feita em alto estilo.

amém

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