mulheres de areia

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além do novo livro que não sai nunca, comecei a escrever um diário no fim do ano passado, com o propósito de lança-lo no meio do ano que vem. por mais de sete meses escrevi histórias passadas em cafeterias paulistanas e cheguei até a dar nome ao natimorto, o chamaria de AMARGO. mas, com exceção de no máximo umas quinze páginas e olhe lá, a real é que o resultado não me satisfez, pelo simples motivo que minha vida é como a da grande maioria das pessoas, ou seja, chata pra caralho e indigna de nota. de maneira que aproveitarei o atraso do livro que já tava finalizado pra incorporar nele os poucos caracteres que prestam do inexistente, com a grande pretensão de assim deixar o material menos intragável. tava com quase dois livros acabados e de repente me vi sem nenhum. mas tudo bem, melhor assim. é preciso admitir derrotas e se reinventar sempre até o fracasso final. se bem que agora acabado estou eu. tudo pelo processo, a única coisa que de fato importa.

intervalo.

ruth e raquel possuíam uma singela casa em pinheiros onde vendiam, acima de tudo, tempo, o bem mais precioso. café e bolos acompanhavam quem usava o espaço para trabalhar ou simplesmente ter uma pausa nesse tal cotidiano onde tantos correm um bocado. porém forças ocultas (alô, jânio!) fizeram com que elas devolvessem o imóvel e ressuscitassem em outra forma física.

quanto vale o seu tempo?

é nesse ponto da história que ocorre a ocupação diurna num bar de jazz, conhecido pela alta qualidade de programação de shows e também pela falta de zelo com bebidas e comidas. será que a permissão de venda de bons cafés durante o dia faz com que se alivie pelo menos um pouco a consciência dos sócios jazzbnnyanos? enfim, que durmam em paz.

embora esse pedaço do centro da cidade talvez configure ambiente inóspito para esse tipo de proposta, as irmãs nogueira tem se esforçado um bocado pra cuidar do produto final vendido. o que é muito bom pra mim, que moro a dezenove passos do logradouro.

pra compensar o apático pão de queijo, há ótima torta de pêra com amêndoas e um croissant que dá um cacete no vendido aqui na rua de baixo, no mundo cão do olivier, aquele que por sua vez rebatizou a cobertura de um apartamento modernista com a inadequada expressão rooftop, que só não soa mais cretina que o mojito de festa infantil produzido na pequena fábrica de horrores.

voltemos às meninas. as opções de extração de café agradam mais que a oferta de prepotentes novas cafeterias paulistanas que ostentam máquinas italianas caríssimas operadas por baristas tão despreparados quanto rubinho barrichello e sua ferrari. em todas visitas feitas no lemni – vou quase todo dia – uma das irmãs estava presente na casa. enquanto isso (é café?) felipe croce preferiu abrir uma filial, em vez de se preocupar com a (falta de) regularidade de sua cafeteria cujo nome remete ao fascismo e aqueles coreanos do bom retiro se dedicam a deixar limpinho o breguíssimo salão – que lembra festa de casamento em buffet na vila olímpia – enquanto não entregam na xícara resultado ao menos razoável. poucas coisas são mais desastrosas que o casamento do dinheiro com o péssimo gosto.

outra boa alternativa é partir pra cima do gostoso pain au chocolat, item raro de achar nessa são paulo que tantos insistem de chamar como capital gastronômica. também rola pegar um sanduíche de porco no célebre vizinho e comer no parklet da frente e mandar junto com um café coado. eis uma bela maneira de usar a cidade.

até que aos poucos o esquema de coworking (não gosto da expressão) vem pegando. eu, tiozão do centro, prefiro comprar café e pagar pelo consumido pra uma das irmãs ou alguém da gentilíssima equipe da criativa e eficiente ocupação que – salve essa informação – dá uma festa todas primeiras segundas do mês, quando raquel larga o barismo pra exercer muito bem o papel de diva cantora, à frente de uma banda de gypsy jazz.

particularmente, a abertura do lemny é uma das poucas coisas boas que ocorreram durante a produção de um livro moribundo que não chegou sequer a ser finalizado e me viciou na bebida mãe. se preferir, dá pra pegar o café em copo de papel e levar pra onde quiser, ou até mesmo comprar o bom grão da bica e moer em casa. a vizinhança agradece.

nesses tempos sombrios de crise, terrorismo cibernético, censura e ameaças anônimas, as irmãs nogueira e suas camaradas souberam se reinventar e empreender com eficiência bonita de ver e gostosa de beber.

como meu quarto de século passou há certo tempo – já sou homem de meia idade – fico um pouco menos amargo com essas meninas que souberam usar a cuca de maneira tão peculiar e sigo na torcida para que ocorram mais iniciativas dessa natureza.

longa vida a quem pensa fora da caixinha.

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